domingo, 4 de outubro de 2009

Recalque de Palavras


Entre Livros e loucos
O poema da loucura é um doce sussurro impresso
Uma sublime expressão de prazer
Delírios e deleites simbióticos
Na mais tênue caligrafia.

E a melodia obsessiva das palavras
Inunda os corações inconstantes
Naufraga as emoções desgovernadas
Sucumbe meio a lagrimas desamparadas
Recalcadas por seus próprios autores.

Entre os mortos e os feridos toda a origem patológica é um portal
Um labirinto, um sucinto e discreto manual de escárnios e glorias,
Amnésias e memórias do incontestável ser ou não ser cotidiano.

De repente faz-se a luz e a escuridão
Faz-se amor e solidão,
Faz do medo a necessidade.

De repente o único é dualidade
E o todo vira mono, poli, vira parte, micro, macro, claro, opaco.
Faz-se então o mosaico, o prosaico, o provérbio e a província.

Karina S. Borges

domingo, 28 de junho de 2009

Entre a dor e a dose.




Mais um blues, um conhaque, a noite acaba e, no entanto, nada chega ao fim.
Basta! A boemia me basta, as canções, os drinques, as ruas lotadas repletas de luzes vermelhas e verdes, bastam os batons vermelhos, as velhas canções e casacos, bastam os velhos amores esquecidos, as mentiras outrora usadas, as mascaras perdidas, os destinos ao leu.
Mais um blues, mais uma dose garçom, por favor, ficarei por aqui esperando a próxima noite, a próxima vitima, e a próxima dor, o desejo de ser possuída por esta amnésia avassaladora é cada vez mais constante e assustador.
Também quero uma vodca para anestesiar esta mente e este corpo que teima o velho dualismo psicofísico e persiste neste elo infindável. Outra dose pois quero esquecer esta loucura de esquecer, quero apagar todos os vestígios de amnésia, quero esquecer as historias guardadas, perdidas e ansiosas a serem contadas.
Basta! Bastam os olhares, as memórias, estas poltronas vermelhas aveludadas, estes livros lidos, esta meia luz e estes lábios que desejam sempre encontrar os meus, bastam os bandeides usados, os machucados incicatrizáveis, as ligações, emails e todo rastreamento de palavras e emoções.
Já não me lembro e ainda quero esquecer a idéia de coração como centro de toda vontade humana, das emoções e do intelecto, o coração é como dever ser, é um órgão muscular oco que bombeia o sangue e o espalha pelo corpo, que neste momento transporta a cento e cinqüenta quilômetros por hora todo o álcool e que torna ainda mais confuso este encéfalo habitado por mnêmicas ilusões, e alucinações do álcool e da vida dentro e fora do comum.
A ultima dose, o ultimo blues e agora basta, talvez não seja a ultima vez mas pelo menos por enquanto a noite me basta, basta a sensação de calor e rubor facial, esta euforia, este humor instável, esta ausência de espelhos e reflexos, estes lapsos de memória, este coma consciente e esta constante tentativa de apagar a dor que não se apaga, de afogar algo incorpóreo em um copo alcoólico num bar e numa canção qualquer.


Karina S. Borges.

sábado, 21 de junho de 2008

A Dança.




Movimento.
Uma dança muda e exclamativa.
O suor, o sangue, as veias que correm contra o tempo, o vento que luta com a maré o bailarino que não sabe quem de fato é, a musica que não sabe bailar.
E tudo dança em suas respectivas coreografias, cada passo sua magia, cada erro sua condenação.
Mãos atadas ao descaso, olhos fechados ao momento, braços erguidos ao acaso,dance mesmo que o corpo já não se mexa, mova-se mesmo que imóvel, afinal dançar é a arte de expressar o que facilmente não se expressa è a arte de curar feridas, de pagar penitencia, de libertar-se de si e dos outros.
A dança é a frase da alma muda, é a peça da encenada, surda é um instante qualquer talvez.
E quando o corpo dança, a idéia balança, o olhar se move, o corpo dança com a alma que desliza e a dança transpira o acaso. Dançamos o que vivemos e o que não vivemos, dançamos para expressar, exprimir e inspirar tudo aquilo que foi, é e virá.
Enquanto dança o corpo escreve essas palavras nunca ditas.
Dançamos sonhos, fantasias, devaneios em cada passo,transformamos o movimento em historia, transformam a historia em coreografias.
E então ofegantes respiramos mais uma pagina em nossas memórias, mais um momento embalado pelo som que dança e vibra em cada passo contido dentro de nós.

Karina S. Borges
21/06/2008

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O Espiral.


Espiral, espiral.
Oito horas da manhã, o café esta sobre a mesa, o leve vapor quebra a monotonia do ar, o cheiro acorda as flores que murchavam em casa, tudo era quase cinza.
Oito e meia, o despertador tocou quase rouco, era hora do trabalho, a casa, o café, o porta retrato, tudo estava lá, tudo, menos ele.
Antes que o dia se levantasse da cama ele saiu, sem levar nada, sem lenço sem documento, alma nua, sem vontade de querer ser ele.
E então caminhou muito e ainda não se sabe o quanto e nem pra onde.
A cada esquina abandonava migalhas de si mesmo, mesmo não tendo a intenção de voltar, de seguir a mesma trilha, de viver do que passou.
A vontade de correr era cada vez maior quando pensava em papéis, contratos, tintas, documentos, transito, palavras.
E então ele correu o máximo que pode tudo o que conseguiu, ele se perdeu para poder se encontrar, e foi preciso esquecer muito para se lembrar de quem era.
Espiral, espiral.
Seus olhos eram dois labirintos, seu coração um abismo, sua vida uma esfinge.
E ele foi de tudo um pouco.
Foi tudo o que pode e tentou ser tudo o que queriam e quando já não havia empenho, se empenhava em ser apenas nada, ah isso era tão difícil.
O tempo estava fechado, seus olhos bem abertos, mas era difícil correr com lágrimas nos olhos.
Naquela manhã quando ele acordou do sonho de estar dormindo, decidiu despertar, e então se levantou, provou pra si que estava vivo que era mais que uma gravata ou um pijama, era mais que computadores e televisões, ele correu com medo de seu leito, de seu jeito, sua perfeição e seu acomodar.
Esteve preso por muito tempo, correndo desesperadamente na esteira dos seus pensamentos, preso em espirais, correndo em seus labirintos até encontrar a idéia de que o café, a foto, as flores e a casa, tudo podia esperar por ele,tudo menos ele.

Karina S. Borges
06/06/2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sonhos de boneca.




Ela ganhou a boneca.
E a boneca olhou pra ela
O plástico confundiu a visão
Impediu de cativa-lá, comove - lá.

Sou boneca sem casa
Com tanta casa vazia por ai
Tantas crianças para brincar.
Tantos brinquedos pra uma criança só.

Seria o egoísmo algo hereditário
Ou será que faz parte da brincadeira?

Minha casa esta lá embaixo
E eu aqui na prateleira
Minhas ruínas tão ruins
Quanto os que aqui me isolam.

Ah mais e daí?

Uma boneca não é de verdade
E ela já tem tantas outras.
Que talvez seja mesmo verdade
Talvez nada seja insubstituível.
Talvez pouco seja o combustível
Para esta locomotiva que não se comove.

E acima da casinha cor de rosa
A prateleira continua vazia
E já não há vagas
Milhões de bonecas em suas embalagens lacradas
Várias bonecas com estórias a serem narradas
Coleções de historias esperando para serem interpretadas

A criação perfeita e personalizada
A divina criação emborrachada
Em vários tamanhos e cores
Esquecida em estantes, armários.
Ausente de dores e amores
Sonhos plásticos em mostruários.

E assim permanece na caixa.
Onde a infância passa e o tempo não passa.
Onde a imortalidade é um ócio que dói.

Na loja, uma possibilidade.
Nas ruas a vontade.
Em casa o desperdício

Em casa, a esperança de “viver”.
Como gente grande, com gente “pequena”.
Ou quem sabe apenas ser por um momento
Guiada pelas mãos de uma fada verdadeira.
Sendo ela mesma algo diferente do que é

Karina S. Borges
02/06/2008

domingo, 18 de maio de 2008

O conto


Caminhou por algumas horas, e então sentou a beira da praia, de repente as ondas a levaram a tocaram, e pode senti-las, pode sentir seus pés no chão, pode ao poucos inundar-se na imensidão do mar.
A maresia a deixou tonta, e no mar o seu oásis, e na areia os seus castelos mal assombrados.
No frio, na chuva, na praia sua solidão, sua doce solidão que tanto lhe assombra, e tanto lhe agrada, e então na areia continua a olhar para seus castelos de sonhos, seus castelos sem alicerces, suas memórias sem raízes.
Já não tem medo dos raios que tornam o horizonte púrpuro, já não a assombra a ausência de pessoas na imensidão deste lugar, já não faz falta as crianças para brincar, já não a espanta que todos tenham a deixado partir, e que todos tenham a deixado de lado e que ao seu lado não há nada e que nada há ao seu lado.
Entra no mar.
Já não há nada a perder.
O oceano é sempre o mesmo, e sempre nos surpreende, nos repreende,assim como as pessoas, nos agrada e nos machuca nos consome e nos farta.
Ela nada sabe, nadar ela não sabe, a leve consigo,adote-a, a esconda em seu abrigo, e em seu nome falará, e por ti viverá, e hei de proteger cada gota, cada grama, cada olhar.
Ela é tão pequenina, ela já viveu tanto, ela nunca viu nada, ela sempre vê o nada.
Seu baldinho vazio, suas pás perdidas, sua paz enterrada por ai, seus pássaros passam por aqui e enfeitam a praia suja,e decoram sua praia linda, seu horizonte tão cinza, castanho, branco, roxo, azul e verde.
Gira o vento o cata-vento, o vento gira o cata-vento, cata vento o cata-vento, conta o vento o cata-vento, canta o vento o cata-vento, um não vive sem o outro, o outro não vive sem o um.
E quando é noite e o mar se torna espelho, olhar pra si mesma é a parte que mais lhe agrada, afinal de contas ela não sabe somar, e já não acredita em contos de fadas, não acredita e nem espera nada além dela e dor mar.

Karina S. Borges
18/05/2008.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Entre Homens e Guarda Chuvas.


E mais um dia de chuva na cidade, e a chuva demora a passar, mas o tempo existe dentro e nós, e quem somos nós?Quem é a cidade?Pra que serve a chuva?
Para uma formiga uma lagrima é chuva, Pro homem, a chuva deixa de ser benção e torna-se desespero, ausência de possibilidades, e ás vezes a desculpa perfeita.
Ousam e abusam da moda, aqueles que saem com seus guarda chuvas cinzentos ou coloridos, que usam botas e tecidos impermeáveis, que tornam todo o toque e contato artificial, ousam mesmo os que camuflam e sintetizam a natureza.
Coragem tem aqueles que sabem, querem e podem se molhar, os que encaram a gripe e os olhares como palmas e platéia.
Espertos mesmo são os que desfrutam dos dias de sol os que queimam a pele e se expõe em dias frios como quem possui um compacto verão particular instantâneo.
Sábios somente são os que carregam o sol consigo em tempo integral,os que conhecem a intensidade de tudo,os que extrapolam limites e não esquecem a integridade nos bolsos.
Ah que saudade da balança, do balanço do vento, dos cabelos, do mar!
Ah quanto tempo faz que já não existo, que persisto aqui debaixo destas tempestades velhas e empoeiradas,dos papéis, dos contratos e filas,infinitas filas de esquecimento.
Esqueci,e o que eu ia falar já não existe,paira por ai em um outro pensamento, um pensamento de outro que é meu, e eu não tenho o direito de tê-lo.
E o mundo é de todos, e não cabe ninguém, ninguém tem nada. Todo mundo se aperta em um trem, tropeça na escada, a fome é tamanha, quase proporcional a fartura do campo, há por ai tanta água, tantos copos vazios nos armários, tantos sucos, tantas mortes nas esquinas, tanto tempo, e pouquíssimos rolex por ai.
Chove, e a chuva é forte, passa na televisão, chove ainda mais na televisão, e a mentira, o milagre da multiplicação na mídia inunda a cidade,perturba o sono de quem lê,ameaça o sonho de quem corre de encontro à chuva.
E ainda chove lá fora, e esta chuva é diferente sobre cada cabeça, e vista de cima a chuva é tão igual, tão semelhante entre pequenos e grande grupos, pequenos e grandes absurdos que chovem sobre os guarda chuvas simples e enfeitiçados perdidos por ai.
E entre Homens e Guarda Chuvas sempre existe um conto, que não conta o ponto, que perde o sentido do texto, que fere o fio da meada,quem cai em uma emboscada e se envolve em mil esfinges.Guardas chuvas são mascaras,os homens são soldados medrosos e ociosos,que anseiam o final da chuva e temem o dilúvio póstumo.

Karina S. Borges
28/03/2008